3ª Geração Modernista (1930-1945)

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Se observarmos o nosso Modernismo em si,  podemos identificar uma oscilação entre polos opostos de concepção artística – especialmente se nos detivermos na poesia. Se a poesia da 1ª geração aboliu o academicismo e o rigor formal do Parnasianismo, e a 2ª geração seguiu – mesmo que de maneira mais branda e equilibrada – essa diretriz, a 3ª geração modernista – ao menos na poesia – irá romper com o ideário de 22.

Nesta fase, que tem início em 1945, principalmente em poetas como João Cabral de Melo Neto, haverá um retorno a certos princípios muito caros aos parnasianos como o zelo com a rima, a métrica e a correção da língua. Claro que a poesia de João Cabral irá muito além do descritivismo frio e da técnica muitas vezes vazia dos parnasianos. Todavia, é inegável que, ao propor uma poesia que retome um rigor formal, João Cabral estaria mais próximo de Olavo Bilac do que de Oswald de Andrade (isso tão somente em termos formais ou de projeto estético, sem levar em consideração questões temáticas e assim por diante).

Já no romance e no conto o que veremos é uma divisão entre a prosa urbana e de introspecção psicológica de Clarice Lispector e o regionalismo universal de Guimarães Rosa. Se a primeira irá mergulhar nos processos de fluxo da consciência em seus contos e romances, o segundo irá plasmar uma linguagem extremamente peculiar para descrever um sertão mineiro mítico e transcendente.

Por essa ruptura da poesia com as ideias de 22 e por essa divisão temática e estilística da prosa nas duas vertentes bem distintas de Clarice e Guimarães é que muitos teóricos chamam a geração de 45 de pós-modernismo, já outros preferem ainda filiar esta fase ao modernismo chamando-a de neo-modernismo, como o crítico Tristão de Ataíde. Entretanto, para fins didáticos, o que se adotou mais comumente no Ensino Médio em relação a esses autores é classifica-los como pertencentes à 3ª geração do modernismo, ou ainda geração de 45. Outro ponto controverso é delimitar até quando se estenderá esta geração. O mais comum – porém insuficiente – é dizer que perdura até os dias atuais. O que talvez seja mais correto seja dizer que a geração de 45 se estenderia até as décadas de 60 ou 70, mas com escolas que se desenvolvem paralelas a ela como o Concretismo nos anos 50, a poesia social e a poesia marginal nos anos 60, 70 e 80

Entendendo a época

Em termos mundiais, no ano de 1945 temos o final da 2ª Guerra e o início da bipolarização entre as forças socialistas e as forças capitalistas, naquilo que ficou conhecido como Guerra fria. “Com o término da conflagração, abre-se uma época de profundas mudanças geográficas, econômicas, políticas, que culminariam na guerra fria entre as potências até então aliadas: de um lado, o Oeste, representado pela Inglaterra, França e Estados Unidos; de outro, o Leste, pela URSS” (MOISÉS, 2000:370).

No Brasil, o país viverá o período desenvolvimentista de Juscelino Kubitschek nos anos 50 e depois do Golpe militar de 1964, teremos o período de duas décadas vivendo sob o comando de uma ditadura militar, que só se encerraria com a reabertura democrática nos anos 80 do século passado. No ano de 1985, houve a eleição indireta do primeiro presidente civil, desde 64, Tancredo Neves, que faleceu antes de assumir o cargo, ficando a presidência nas mãos de seu vice, José Sarney. Depois de o país ter sido governado por 5 anos por José Sarney, no ano de 1989, o Brasil escolheu por voto direto Fernando Collor, presidente que não exerceria até o fim seu mandato, devido a um processo de impeachment, ocasionado por denúncias de corrupção.

A POESIA

b) Características da poesia de 45: os poetas dessa geração, como já dissemos, recusarão os excessos iconoclastas da geração de 22. Recusa-se o poema-piada, o poema-pílula, as incorreções gramaticais, o desleixo formal. Assim os poetas de 45 buscarão uma poesia de maior apuro técnico, rigor formal, precisão de linguagem, contenção e sobriedade emocional.

c) Principais poetas: são poetas de destaque da geração de 45 autores como Domingos Carvalho da Silva (Rosa Extinta – 1945); Alphonsus de Guimaraens Filho (Nostalgia dos Anjos – 1946); Lêdo Ivo (Ode e Elegia – 1945); José Paulo Paes (Novas Cartas Chilenas – 1954); Geir Campos (Rosa dos Rumos – 1950); entre outros. Entretanto, o mais destacado poeta desta fase é João Cabral de Melo Neto.

João Cabral

• Antimusical, Antisentimental, Antilírico;
• Poesia racional, Calculada (Engenheiro);
• Versos forjados, fabricados;
• Linguagem substantiva, sem adornos;
• Abafamento, anulação do “eu”;

Nasceu em Recife, no ano de 1920 e faleceu no Rio de Janeiro, em 1999. Trabalhou como funcionário do Departamento de Estatística, tentou a carreira de jogador de futebol, mas estabeleceu-se mesmo na carreira diplomática, percorrendo vários países da Europa, sendo que destes a Espanha foi o país no qual passou maior tempo e que melhor se adaptou. Em sua poesia, João Cabral escolherá como espaços temáticos preferenciais exatamente Recife – Pernambuco, e Sevilha – Espanha. Cabral pertenceu à Academia Brasileira de Letras e é considerado um dos maiores poetas brasileiros do século XX, tendo sido cogitado seu nome algumas vezes para o prêmio Nobel de Literatura.

A poesia de João Cabral, que teve um início marcado por inclinações surrealistas, caracteriza-se por um completo apagamento do “eu”, por uma anulação dos sentimentalismos fáceis, pela negação das emoções banais. Conhecido como o poeta engenheiro, João Cabral pratica um lirismo circunspecto, numa linguagem muitas vezes seca e invariavelmente contida, sem derramamentos expansivos (aqui poderíamos fazer uma comparação com a linguagem e estilo de Graciliano Ramos da geração de 30). Cabral assim vai optar por fazer o que se chamou de verso substantivo, isto é, a opção pelo substantivo cru, sem os adornos dos adjetivos. E dentre estes substantivos, o preferido é o substantivo pedra, num exemplo do antilirismo de João Cabral, que não faz uma poesia “flor”, uma poesia “pétala”, mas uma poesia “pedra”, ou seja, uma poesia que é feita mais para ferir do que para afagar, uma poesia que se representa pela imagem de uma faca que é só lâmina, onde se pega, corta-se.

Outro aspecto relevante da poesia de Cabral é sua total indiferença ou até aversão para com a música. Vejam o que João dizia em relação à música:

“É essencial em poesia ter um som, uma ligação com a fala. Mas é uma dicção diferente, que não é cantável. Realmente não gosto de música, nunca gostei. Sou um poeta visual, não auditivo. A única música que gostei foi o flamenco, que é dissonante, pois o sujeito canta no extremo da voz”. (Fonte: Gazeta Mercantil, 28/12/1997)

E ainda:

“Não tenho nenhuma formação musical, nem gosto pela música… É, não sou entoado, não tenho voz… Sou completamente surdo para a música: quando vou a um concerto a minha vontade é dormir. A música me embala, com exceção de dois tipos de música popular: o frevo pernambucano e o flamenco. (Fonte: SARAIVA, Arnaldo. Conversas com escritores brasileiros. Porto: ECL, 2000.)

Assim João Cabral propõe uma espécie de anti-poesia (um dos seus poemas se chama exatamente Antiode), antilírica, antisentimental e antimusical. Uma poesia por vezes hermética – impenetrável –, de difícil assimilação e intelectualizada.

Entretanto, este poeta complexo e nada musical, tem como um dos seus poemas mais conhecidos exatamente uma obra mais simples e de temática popular, que João Cabral fez inspirado na literatura de cordel – dos poetas populares do nordeste brasileiro – e que foi inclusive musicado por Chico Buarque. Trata-se do poema dramático (peça de teatro em forma de poema) chamado Morte e vida severina – auto de natal pernambucano.

Nas palavras do autor: “O poema é simples. Escrevi-o para os sujeitos analfabetos que ouvem literatura de cordel na Feira de Santo Amaro, no Recife”. O enredo da peça mostra a viagem de um Severino retirante que sai da caatinga indo para o Recife procurando uma vida melhor. Todavia, em todo seu trajeto, o retirante vai se deparando em cada lugar com a presença da morte. Desde o rio que ele segue pra chegar ao mar e que seca, passando pelo encontro com vários Severinos mortos pelas causas mais variadas: “de velhice antes dos 30/ emboscada antes dos 20/ de fome um pouco por dia/”.  Até chegar no Recife, quando pensa finalmente ter uma vida digna, depara-se com uma realidade ainda mais cruel do que aquela vivida no sertão. Severino presencia a conversa de dois coveiros que dizem que os Severinos que saíam da caatinga para o Recife, procurando uma vida melhor, só encontravam na cidade mais sofrimento, sendo a maioria deles enterrados como indigentes. Diante deste quadro desolador Severino pensa em cometer suicídio e assim abreviar o sofrimento que o espera. Todavia, quando está prestes a se jogar de uma ponte nas águas do rio Capibaribe, Severino encontre um senhor, um carpinteiro chamado José. Os dois conversam e Severino pergunta ao mestre carpina se a vida valia a pena, porém quando o carpinteiro está para responder, a conversa é interrompida por uma mulher que vem avisar o seu José do nascimento do seu filho, também chamado Severino.

Aqui se encena um outro auto dentro do auto, pois este Severino nascido, filho do carpinteiro, é uma representação do menino Jesus (daí o subtítulo da obra ser “auto de natal pernambucano”). Nesse momento, Severino vai observar as cenas que representam uma espécie de presépio vivo para esse Jesus nordestino. E ao final destas cenas, o José, mestre carpina, vai olhar para o Severino retirante e responder à pergunta feita por ele na ponte. O carpinteiro vai dizer que é difícil defender com palavras a vida, mas que o nascimento de seu filho era a própria resposta: cada vida que nasce é uma renovação da esperança, e o carpinteiro acaba por dizer que a vida sempre vale a pena, mesmo sendo pequena e sofrida, a vida sempre vale a pena mesmo sendo uma vida severina.

Com essa fala a peça acaba e fica assim subentendida a desistência de Severino de cometer o suicídio. fecha-se dessa forma o ciclo – quando Severino buscava a vida, encontrou a morte, mas quando decidiu se render à morte, reencontrou a esperança na vida. Apesar de João Cabral achar esse um dos seus poemas menos trabalhados, a obra é uma das mais conhecida da nossa literatura, tendo ganhado diversos prêmios, mundo a fora e sendo a peça muito encenada até hoje. A peça é constituída de 18 cenas, compostas de 1241 versos, em sua maioria, heptassílabos ou redondilha maior (cadência popular). As 12 primeiras cenas mostram a peregrinação de Severino. As 6 últimas cenas – referem-se ao nascimento do menino Jesus Severino.

Principais obras

  • Pedra do Sono (1942);
  • O Engenheiro (1945);
  • O Cão sem Plumas (1950)
  • Educação pela Pedra (1966)
  • Morte e vida severina (1967)
  • A escola das facas (1980)

A PROSA

d) Principais autores

Guimarães Rosa

Nasceu em Cordisburgo (MG), 1908, e morreu no Rio de Janeiro em 1967. Formado em medicina, exerceu seu ofício em diversas cidades do interior de Minas Gerais, nesses locais conheceu as pessoas e as estórias que povoariam a sua obra. Era costume de Guimarães subir em lombo de cavalo e acompanhar vaqueiros em viagens de entregas de gado, ouvindo a fala e os causos dos vaqueiros, fazendo em cadernos suas anotações. Poliglota, Guimarães dizia a respeito de seus conhecimentos linguísticos: “falo: português, alemão, francês, inglês, espanhol, italiano, esperanto, um pouco de russo; leio: sueco, holandês, latim e grego (mas com o dicionário agarrado); entendo alguns dialetos alemães; estudei a gramática: do húngaro, do árabe, do sânscrito, do lituânio, do polonês, do tupi, do hebraico, do japonês, do tcheco, do finlandês, do dinamarquês; bisbilhotei um pouco a respeito de outras. Mas tudo mal. E acho que estudar o espírito e o mecanismo de outras línguas ajuda muito à compreensão mais profunda do idioma nacional. Principalmente, porém, estudando-se por divertimento, gosto e distração”.

Guimarães Rosa foi diplomata, tendo sido ainda Ministro e chefe do Serviço de Demarcação de Fronteiras. Eleito para a Academia Brasileira de Letras em 1963, adiou sua posse por anos, devido a questões místicas e de superstição, que sempre acompanharam a vida do autor. Por fim, veio a tomar posse apenas em 1967. Três dias depois da cerimônia, Guimarães morre em decorrência de um enfarte.

Guimarães praticou um regionalismo diferente do romance de 30, a começar pelo espaço preferencial de suas obras que é o sertão mineiro, e não o nordestino. Outra diferença é que não só o espaço, mas também as temáticas dos prosadores de 30 eram regionais – a seca, o cacau, o engenho, já em Guimarães os temas são mais universais – o bem versus o mal; o homem em busca de seu destino; a vingança; a loucura; a traição; a travessia; o pacto demoníaco… Por isso se dizer que na obra rosiana temos um sertão mineiro universalizado.   Assim, o autor vai aproveitar o seu conhecimento da linguagem e dos causos do sertão para construir as suas estórias (com ‘e’ e não com ‘h’ para dar a elas o seu teor anedótico, ficcional e imaginativo).

No entanto, a característica mais peculiar e mais importante de Guimarães é a linguagem inovadora por ele criada para contar as suas estórias. Uma linguagem surpreendente, repleta de misturas e invenções. A linguagem de Guimarães, que para um desavisado pode às vezes até parecer não ser a língua portuguesa, se compõe de:

  • Coloquialismos e regionalismos – termos típicos do sertão (“escuitar”, “sinhô”, “adonde”)
  • Arcaísmos – palavras antigas em desuso (“riposta” = resposta, “malino” = maligno)
  • Neologismos – criações de novas palavras (“retrovão”, “maravilhal”, “sussurruído”, “descrevivendo”, “beladormeceu”, “personagente”).
  • Hibridismos – misturas de línguas diversas (“sagarana” – saga = alemão, rana = tupi)
  • Prosa poética – uso de recursos típicos da poesia como onomatopeias, aliterações, rimas, ecos e assonâncias (“pão ou pães, é questão de opiniões…”

Outra característica importante da obra de Guimarães é o misticismo e o aspecto sobrenatural de suas estórias – o autor explora o sertão no que ele tem de mágico, mítico e misterioso. São comuns em seus livros a presença de cenas que remetem a assombrações, rezas, simpatias, pactos, feitiços, a presença divina, as tentações e possessões demoníacas.

Por toda essa inventividade vocabular mesclada a esse clima mítico, Guimarães foi chamado pela pesquisadora Consuelo Albergaria de “bruxo da linguagem”.

A principal produção de Guimarães se dá nas narrativas curtascontos, como os que compõem seus livros Sagarana, Primeiras estórias e Tutaméia ou terceiras estórias. Guimarães também escreveu narrativas de extensão intermediárias – novelas, como as que compõem a obra Corpo de baile. Em sua carreira o autor produziu apenas um romance, considerado sua obra-prima: Grande sertão: veredas. Nesse livro, temos o diálogo do ex-jagunço Riobaldo, velho, que ao receber uma visita misteriosa em sua fazenda, vai relembrando e relatando sua vida a este interlocutor – o qual não se revela sua identidade nem ao final da narrativa. Riobaldo vai falar da sua entrada na jagunçagem, o pacto demoníaco que fizera, mas que tinha dúvidas sobre a sua realização total, fala também da sua ascensão ao cargo de chefe do bando; a luta contra o traidor do bando, o jagunço Hermógenes; e, principalmente, a amizade e amor que Riobaldo nutriu por um companheiro de bando – o moço Reinaldo, também chamado Diadorim. Durante toda a narrativa existe um afeto entre os dois, que nunca sai do âmbito do respeito e da consideração mútuas. Todavia, ao final da narrativa, Riobaldo revela ao seu interlocutor que na luta final entre seu bando e o de Hermógenes, tendo Diadorim ao mesmo tempo matado e sido morto numa luta de facas com Hermógenes, descobre-se no momento da encomendação de seu corpo que Diadorim era mulher – filha do chefe jagunço Joca Ramiro, que fora assassinado por Hermógenes. Diadorim se travestia de homem para fazer parte da jagunçagem e posteriormente para vingar a morte de seu pai. Ao final da narrativa Riobaldo interrompe sua narrativa que se encerra não com um ponto final, mas com o símbolo do infinito ∞.

Sobre esse livro, dos mais importantes da nossa literatura, o crítico Massaud Moisés diz o seguinte: “o ex-jagunço narra ao sabor do acaso, da livre associação, sem obediência à cronologia, como que dando vazão a um infindável ‘fluxo da consciência’ (…) aos poucos vai-se montando a história da sua vida, que culmina pelo combate entre o seu bando e o de Hermógenes. Na longa travessia, Riobaldo hesita entre Deus e o diabo, rende-se a este, tortura-se pelo amor de Diadorim, desconhecendo que se tratava de uma donzela disfarçada em bandoleiro para vingar seu pai, Joca Ramiro. Assim, dois eixos dramáticos e temáticos conduzem a narrativa: o impasse amoroso, em meio às aventuras, e o misticismo”. (MOISÉS, 2000:454).

Já para Antonio Candido “Grande sertão: veredas é desses livros inesgotáveis, que podem ser lidos como se fossem uma porção de coisas: romance de aventuras, análise da paixão amorosa, retrato original do sertão brasileiro, invenção de um espaço quase mítico, chamada à realidade, fuga da realidade, reflexão sobre o destino do homem, expressão de angústia metafísica, movimento imponderável de carretilha entre real e fantástico…”

Principais obras

  • Sagarana (1946)
  • Corpo de Baile (1956)
  • Grande Sertão: veredas (1956)
  • Primeiras estórias (1962)
  • Tutaméia: terceiras estórias (1967)

Trechos da obra

INÍCIO DE GRANDE SERTÃO

– Nonada. Tiros que o senhor ouviu foram de  briga de homem não, Deus esteja. Alvejei mira em árvores no quintal, no baixo do córrego. Por meu acerto. Todo dia isso faço, gosto; desde mal em minha mocidade. Daí, vieram me chamar.~Causa dum bezerro: um bezerro branco, erroso, os olhos de nem ser – se viu –; e com máscara de cachorro. Me disseram; eu não quis avistar. Mesmo que, por defeito como nasceu, arrebitado de  beiços, esse figurava rindo feito pessoa. Cara de gente, cara de cão: determinaram  – era o demo. Povo prascóvio. Mataram. Dono dele nem sei quem for. Vieram emprestar minhas armas, cedi. Não tenho abusões. O senhor ri certas risadas (…)

Esses gerais são sem tamanho. Enfim, cada um o que quer aprova, o senhor sabe: pão ou pães, é questão de opiniães… O sertão está em toda a parte.

MORTE DE DIADORIM

“… O Hermógenes desumano, dronho _ nos cabelões da barba… Diadorim foi nele […] o diabo no meio da rua, no meio do redemunho… sangue. Cortavam toucinho debaixo de couro humano […] mirei e vi […] Diadorim cravar e sangrar o Hermógenes […] Os urros… como, de repente não vi mais Diadorim! No céu um pano de Nuvens… Diadorim! Diadorim de múltiplas mortes mata quem matou o pai e morre por essa vingança. Vingança essa que é feita, pois Diadorim mata Hermógenes, porém perde a vida, nas mãos do mesmo assassino do pai.

(…)

Eu estendi a mão para tocar naquele corpo, e estremeci, retirando as mãos para trás, incendiável: abaixei meus olhos. E a Mulher estendeu a toalha, recobrindo as partes. Mas aqueles olhos eu beijei, e as faces, a boca. Adivinhava os cabelos. Cabelos que cortou com tesoura de prata…Cabelos que, no só ser, haviam de dar para baixo da cintura…E eu não sabia por que nome chamar; eu exclamei me doendo:

– Meu amor!.. 

FINAL DE GRANDE SERTÃO

E me cerro, aqui, mire e veja. Isto não é o de um relatar passagens de sua vida, em toda admiração. Conto o que fui e vi, no levantar do dia. Auroras. Cerro. O senhor vê. Contei tudo.

Agora estou aqui, quase barranqueiro. Para a velhice vou, com ordem e trabalho. Sei de mim? Cumpro. O Rio de São Francisco – que de tão grande se comparece – parece é um pau grosso, em pé, enorme… Amável o senhor me ouviu, minha idéia confirmou: que o Diabo não existe. Pois não? O senhor é um homem soberano, circunspecto. Amigos somos. Nonada. O diabo não há! É o que eu digo, se for… Existe é homem humano. Travessia.

Clarice Lispector

Nasceu no ano de 1920, na Ucrânia, na aldeia de Tchetchenillk, e faleceu em 1977, no Rio de Janeiro. Vinda ainda bebê para o Brasil com sua família, fixaram-se em Recife, onde Clarice passou a infância. Com 12 anos e já órfã de mãe foi com a família para o Rio de Janeiro. Casou-se em 1943 e no ano seguinte, com 19 anos, publica sua primeira obra: Perto do coração selvagem, que foi recebido com espanto e admiração pela crítica e pelo público, tanto pela juventude quanto pelo estilo inovador da escritora. Posteriormente formou-se em Direito e colaborou em alguns jornais cariocas, mas seguindo o marido diplomata, viveu por anos no exterior. Teve dois filhos desse casamento e depois de separar-se do marido, voltou ao Brasil, passando a morar no Rio de Janeiro. Em 1977 soube de um câncer generalizado e um mês depois viria a falecer.

O estilo de Clarice tem semelhanças com o romance psicológico, calcado no chamado fluxo de consciência (stream of consciouness) presente na literatura estrangeira em nomes como os do irlandês James Joyce e da americana Virgínia Wolf.

De forte apelo intimista, suas histórias são voltadas não para a ação, mas para o interior das personagens. São contos e romances são construídos a partir de monólogos interiores, isto é, as personagens falam principalmente de si para si, sendo que a sequência narrativa não possui linearidade temporal e espacial, obedece, sim, aos vai-e-vens da mente humana. A respeito de seus textos, Clarice dizia: “não sou escritora, sou uma ‘sentidora’ ”. Num de seus textos diz-se o seguinte: “em superfície de tempo fora um minuto apenas, mas em profundidade eram velhos séculos…” (A paixão segundo G.H.).

Suas narrativas também possuem um caráter simbólico e metafórico, de busca dos “porquês” da existência. Sendo que suas personagens sempre passam por um processo de epifania, isto é, uma descoberta, uma revelação abrupta que muda a maneira de ver e se relacionar com o mundo. Geralmente estas revelações são desencadeadas pelo contato com seres inferiores, animais (ratos, baratas, macacos, cachorros…). Vejam o que diz um dos contos de Clarice, em que a narradora está andando na rua e se depara com um rato morto: “e foi quando quase pisei num rato morto. Em menos de um segundo estava eu eriçada pelo terror de viver…” (Perdoando Deus).

O espaço das obras de Clarice é o ambiente urbano e suas histórias se desenvolvem a partir de cenas do cotidiano doméstico, comuns, normais ou até banais. Bem como a maioria de suas personagens protagonistas são mulheres, mães em suas relações familiares e no trato com seus filhos. Todavia, é bom ressaltar que não se trata de literatura feminista, e sim, feminina.

A obra de Clarice também é repleta de metáforas insólitas, incomuns, como neste trecho do romance A paixão segundo G.H., em que a narradora num monólogo interior, reflete: “perdi alguma coisa que me era essencial, que já não me é mais. Não me é necessária, assim como se eu tivesse perdido uma terceira perna que até então me impossibilitava de andar, mas que me fazia um tripé estável…”.

Por fim, é fundamental ressaltar que o mais importante ao se analisar uma obra de Clarice Lispector não é a ação das personagens, pois em seus contos e romances os acontecimentos externos são mínimos ou mesmo inexistentes. O cerne de suas obras esta na introspecção, na reflexão sobre pequenos fatos que desencadeiam o despertar da consciência. É o caso de seus dois mais famosos romances: A paixão segundo G.H. e A hora da estrela. 

A PAIXÃO SEGUNDO G.H.

Uma mulher chamada G.H., jovem, moderna, rica, independente, em seu apartamento de cobertura, acorda numa manhã para tomar café, mas repentinamente se estremece com a constatação de que estava só. Lembra-se, então, da empregada que morava com ela e que se demitira, mas surpreendentemente não conseguia recordar nem o nome nem a fisionomia da mulher, dado o desdém e a frieza com que se relacionava com ela. Vai então ao quarto da empregada, fazia seis meses que não entrava ali. Ao entrar, ela mergulha em seu próprio vazio interior. Procura desesperadamente algo para fazer, mas não encontrada nada, pois o quarto estava extremamente limpo e arrumado, havendo apenas um misterioso desenho a carvão na parede. GH. fica olhando para o desenho, tentando desvendá-lo. E eis que então aparece uma barata, saída de um armário.

Aí dá-se uma intensificação do processo de fluxo da consciência que já marcava a narrativa desde suas primeiras páginas. G.H compara sua solidão com a da barata, sente nojo pelo inseto, mas não consegue se afastar dele, pelo contrário, vai pouco a pouco se aproximando da barata. O leitor acompanha GH em seus pensamentos sobre passado, presente e futuro, que dançam sem parar em sua mente, até o momento que ela toca na barata e, finalmente, prova o seu sabor.

Há aqui uma entre várias simbologias – GH, representante da humanidade moderna, limpa e asséptica, porém apesar de evoluída em termos científicos e tecnológicos a humanidade permanece desumana. GH chega à conclusão “de que o mundo não é humano. E de que não somos humanos”. Portanto, comungar da barata (e aqui a referência bíblica não é coincidência) é comungar metaforicamente do seu estado mais primitivo, selvagem, e essencial. O homem precisa voltar a comungar da sua humanidade e para isso é necessário uma viagem de autoconhecimento, de superação da náusea física e também existencial.

A HORA DA ESTRELA

A Hora da estrela é a última obra publicada em vida por Clarice. É a história de uma nordestina, feia, magra e ignorante chamada Macabéa, que vai para o Rio de Janeiro e se torna datilógrafa, mesmo sem saber datilografia. Na cidade grande começa a namorar Olímpico de Jesus, nordestino como ela, ambicioso, que alimenta a ilusão de se tornar político. Depois de um tempo de namoro com Macabéa, abandona-a para ficar com Glória, colega de trabalho da nordestina. No mesmo dia em que é abandonada por Olímpico, Macabéa é demitida. Desnorteada, ela sai sem rumo e decide consultar uma cartomante, esta prevê que a moça seria feliz, a felicidade viria do “estrangeiro”, um alemão atravessaria seu caminho e finalmente chegaria a hora da sua estrela brilhar. De certa forma, é o que acontece: ao sair da casa da cartomante, Macabéa é atropelada por Hans, um alemão que dirigia um luxuoso Mercedes-Benz, com sua indefectível logomarca em forma de estrela no capô. Chegara, pois, para Macabéa, a hora da sua estrela.

Principais obras

Romance

  • Perto do Coração Selvagem (1943)
  • O Lustre (1946)
  • A Maçã no Escuro (1961)
  • A Paixão segundo G.H. (1964)
  • Água Viva (1973)
  • A hora da estrela (1977)

Contos

  • Laços de família (1960)
  • A legião estrangeira (1964)
  • Felicidade clandestina (1971)
  • A imitação da rosa (1973)

Trechos da obra

Estou desorganizada porque perdi o que não precisava? Nesta minha nova covardia – a covardia é o que de mais novo já me aconteceu, é a minha maior aventura, essa minha covardia é um campo tão amplo que só a grande coragem me leva a aceitá-la -, na minha nova covardia, que é como acordar de manhã na casa de um estrangeiro, não sei se terei coragem de simplesmente ir. É difícil perder-se. É tão difícil que provavelmente arrumarei depressa um modo de me achar, mesmo que achar-me seja de novo a mentira de que vivo. Até agora achar-me era  já ter uma idéia de pessoa e nela me engastar: nessa essoa organizada eu me encarnava, e nem mesmo sentia o grande esforço de construção que era viver. A idéia que eu fazia de pessoa vinha de minha terceira perna, daquela que me plantava no chão. Mas e agora? estarei mais livre

(A PAIXÃO SEGUNDO G.H)

Ela era calada (por não ter o que dizer) mas gostava de ruídos. Eram vida. Enquanto o silêncio da noite assustava:  parecia que estava prestes a dizer uma palavra fatal. Durante a noite na rua do Acre era raro passar um carro, quanto mais buzinassem, melhor para ela. Além desses medos, como se não bastassem, tinha medo grande de pegar doença ruim lá embaixo dela – isso, a tia lhe ensinara. Embora os seus pequenos óvulos tão murchos. Tão, tão. Mas vivia em tanta mesmice que de noite não se lembrava do que acontecera de manha. Vagamente pensava de muito longe e sem palavras o seguinte: já que sou, o jeito é ser. Os galos de que falai avisavam mais um repetido dia de cansaço. Cantavam o cansaço. E as galinhas, que faziam elas? Indagava-se a moça. Os galos pelo menos cantavam. Por falar em galinha, a moça às vezes comia num botequim um ovo duro. Mas a tia lhe ensinara que comer ovo fazia mal para o fígado. Sendo assim, obediente adoecia, sentindo dores do lado esquerdo oposto ao fígado. Pois era muito impressionável e acreditava  em tudo o que existia e no que não existia também. Mas não sabia  enfeitar a realidade. Para ela a realidade era demais para ser acreditada. Aliás a palavra “realidade” não lhe dizia nada. Nem a mim, por Deus. Quando dormia quase que sonhava que a tia lhe batia na cabeça. Ou sonhava estranhamente em sexo, ela que de aparência era assexuada. Quando acordava se sentia culpada sem saber por quê, talvez porque o que é bom devia ser proibido.  Culpada e contente. Por via das dúvidas se sentia de propósito culpada e rezava mecanicamente três ave-marias, amém, amém, amém. Rezava mas sem Deus, ela não sabia quem era Ele e portanto Ele não existia. Devo dizer que ela era doida por soldado? Pois era. Quando via um, pensava com estremecimento de prazer: será que ele vai me matar? E tinha um luxo, além de uma vez por mês ir ao cinema: pintava de vermelho grosseiramente escarlate as unhas das mãos. Mas como as roia quase até o sabugo, o vermelho berrante era logo desgastado e via-se o sujo preto por baixo. E quando acordava? Quando acordava não sabia mais quem era. Só depois é que pensava com satisfação: sou datilógrafa e virgem, e gosto de coca-cola. Só então vestia-se de si mesma, passava o resto do dia representando com obediência o papel de ser.

(A HORA DA ESTRELA)

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